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"Dama de Espadas - crónica dos loucos amantes", de Mário Zambujal
Silêncio, de Shusaku Endo

Em 1643, o mundo cristão recebe com choque a notícia de que o padre português Cristóvão Ferreira, o missionário líder da Companhia de Jesus no Japão, considerado como uma espécie de paladino da fé cristã no oriente, apostatou. Em Lisboa, três jovens padres, Sebastião Rodrigues, Francisco Garrpe e Juan de Santa Maria, antigos discípulos de Ferreira, ficam atónitos com a perturbadora novidade e decidem partir para a terra do sol nascente em busca do seu mestre, procurando descobrir se realmente apostatou perante a tortura e, caso o tenha feito, quais as razões que o motivaram a abandonar a fé. Num contexto histórico em que os missionários portugueses, que haviam propagado a fé cristã no Japão no século anterior, estavam a ser perseguidos pelo shogunato de Tokugawa, a entrada clandestina em terras nipónicas pressupõe um ponto de não-retorno que os três padres decidem assumir incondicionalmente... mesmo que lhes custe as próprias vidas.
A narrativa centra-se na personagem de Sebastião Rodrigues. Chegado ao Japão, Rodrigues irá descobrir uma terra onde a religião cristã sobrevive com dificuldade nalgumas aldeias de camponeses, com os seus seguidores a serem perseguidos por um governo que cultiva a ideia de que “esta terra não é propícia aos ideais cristãos” e tortura todos aqueles que, secretamente, seguem ou professam o catolicismo até que estes reneguem a sua fé. Na sua missão de descobrir Ferreira e tentar manter viva o pouco que resta da fé cristã em terras japonesas, Rodrigues deparar-se-á com um conjunto de situações que lhe farão questionar a inacção do seu Deus perante tamanhas atrocidades ou, por outras palavras, o seu imenso e aterrador silêncio a que o título do livro alude. Sentindo-se abandonado a si mesmo numa terra estranha que lhe resiste, e desejando o martírio como fim glorioso para a sua existência terrena, Rodrigues encontrar-se-á perante o terrível dilema de ter de abdicar das suas crenças para salvar a vida daqueles que veio evangelizar ou manter-se fiel à Igreja sem, no entanto, cumprir os seus ideais de salvação de todos os homens.
De que nos fala, no fundo, “Silêncio”? Essencialmente, é uma história sobre a fé ou, melhor, sobre a dúvida como parte fundamental de qualquer crença religiosa sólida. A viagem de Rodrigues, mais do que uma simples demanda pelo seu mentor num território desconhecido, é, sobretudo, uma jornada de questionamento interior da sua própria fé no dogma cristão – horrorizado com o sofrimento dos camponeses japoneses, bem como com o cerco que se aperta em seu redor, Rodrigues depara-se com um conjunto de frustrações amargas que lhe farão rever e pôr em causa toda a sua adoração pela figura de martírio de Cristo – ao mesmo tempo que tenta, desesperadamente, não abdicar dos valores e da fé que o guiaram durante toda a sua vida. Não é difícil encontrar, nas dúvidas do protagonista, paralelismos com a vida do autor, nem tão pouco perceber o que o terá motivado a escrever este romance - o próprio Endo teve uma vida preenchida de conflitos com a sua fé cristã, e foi só através de um estudo aprofundado da vida de Cristo e da descoberta de que o lendário mártir também tivera dúvidas que o autor conseguiu conciliar-se com a sua fé e com o mundo.
Como refere Scorsese no excelente prefácio que assina para a recente edição da Peter Owen, outro dos factores determinantes na história é o realçar da importância da figura de Judas na saga bíblica – o seu papel é inúmeras vezes referido por Rodrigues, que, no seu período de formação, nunca compreendera totalmente a sua importância na mitologia cristã e que irá, ao longa da história, começar a perceber o significado da frase que Cristo lhe dirigiu: “O que tens a fazer, fá-lo depressa.” A figura de Judas, aliás, ganha uma curiosa personificação nessa personagem extraordinária que é Kichijiro, um pobre e fraco pedinte que assume, desde o início, a sua fraqueza, a sua corrupção, a sua incapacidade de se manter fiel perante as circunstâncias mais duras... portanto, a sua própria humanidade.
O que realmente surpreende na escrita de Endo é a extraordinária compreensão que demonstra ter pelas fraquezas e dúvidas das suas personagens – não estamos perante uma ficção com heróis duros e perfeitos, a dúvida e a insegurança são uma constante nos pensamentos de Rodrigues e o autor, com inegável mestria, consegue descrever estes sentimentos sem entrarmos numa escrita exclusivamente centrada na primeira pessoa e, acima de tudo, sem nos fazer perder o interesse pelo desenrolar da história. Não estamos tão pouco perante um panfleto anti-cristão ou meramente denunciante da perseguição japonesa aos missionários portugueses. O objectivo de Endo parece ser o de mostrar que a verdadeira fé (seja ela cristã, budista ou muçulmana) não consiste numa obediência cega e militante dos dogmas religiosos mas, antes, numa constante (re)interpretação das grandes narrativas canónicas e no respeito pelo valor da vida humana.
Mais do que uma mera história sobre religião, e mais do que um simples romance histórico, “Silêncio” de Shusaku Endo é um romance notável que urge descobrir, seja nas suas versões em inglês ou francês, enquanto uma nova edição portuguesa (que, provavelmente, só será publicada aquando da estreia do filme de Scorsese...) não chega.
Ricardo Gonçalves
disse-me um Adivinho

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Uma longa viagem com José Saramago, de João Céu e Silva
O rastro do jaguar

LIVRO, O RASTRO DO JAGUAR, DE MURILO ANTÓNIO DE CARVALHO
Romance que venceu prémio Leya é sobre um índio regressado ao Brasil
A história de um índio Guarani regressado da Europa ao Brasil de finais do século XIX, onde se torna o aguardado chefe guerreiro da sua tribo, valeu a Murilo António de Carvalho o Prémio Leya 2008
Chama-se O Rastro do Jaguar e é o primeiro romance deste jornalista, escritor, argumentista e realizador de televisão brasileiro, de 60 anos, que concedeu uma entrevista à Lusa por telefone, a partir do coração da Amazónia, junto ao rio Tapajós, onde acaba de gravar um documentário.
«É um romance que se passa nos últimos anos do século XIX, um período que cobre três guerras aqui na América do Sul: a Guerra do Paraguai - Brasil, Uruguai e Argentina contra o Paraguai, que foi a principal guerra da América do Sul -, uma guerra pequena, a dos índios Guarani, para sobreviverem ao tumulto que estava sendo causado no sul do Brasil pela Guerra do Paraguai, e as últimas guerras dos índios Aimoré em Minas Gerais, quando eles foram praticamente extintos pelas forças do Governo brasileiro», disse à Lusa Murilo António de Carvalho, para situar a acção.
O livro, indicou, «trata fundamentalmente da vida de um índio brasileiro que foi criança para a Europa e que, nessa ocasião, está de retorno ao Brasil para reconhecer sua terra e seu povo. E quem o acompanha é um jornalista nascido em Portugal, Pereira, que é o narrador do livro».
Apesar de ter nascido em Portugal, o Pereira «acabou indo para França, trabalha num jornal francês e vem à América do Sul fazer a cobertura da Guerra do Paraguai. Junto com ele vem esse índio, que já tem 50 anos e é um músico», prosseguiu.
O índio - frisou - «acaba se tornando um jaguar (o Jaguar que dá nome ao romance), um chefe guerreiro esperado pelos índios Guarani, que são índios com uma profunda religiosidade, eles têm uma cosmogonia muito própria».
«E então, nessa confusão toda, eu consigo descrever historicamente as principais batalhas dessas três guerras e também mostrar um pouco da busca da Terra Sem Males, que é o principal objectivo dos índios Guarani, da cosmogonia Guarani», explicou.
No romance, o jornalista português, «que ficava aqui no Brasil com uma moça de Minas Gerais, volta para França, vai trabalhar lá, ela morre, e ele já está velho e quando volta ao Brasil, para viver na cidade onde ela vivia, na madrugada do primeiro dia do século XX, começa a narrar, em 'flashbacks', toda a sua experiência, toda a história que envolveu a sua vinda ao Brasil, as guerras e tudo o mais», resumiu o autor, no que classificou como «uma síntese um pouco ligeira» de um «livro muito grande», com quase 600 páginas, que escreveu «nos últimos quatro anos».
«Foram quatro anos de trabalho, porque implicou ir a Portugal, a bastantes lugares da França, Argentina, Uruguai... foi necessário fazer uma longa viagem por todas as regiões para adequar a parte de ficção com a parte histórica», concluiu Murilo António de Carvalho.
Fonte: sol.pt
Friedrich Nietzsche
"Aquele que tem um PORQUÊ para viver pode suportar qualquer COMO."
– Friedrich Nietzsche
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